tecnologia e ambiente de trabalho

 

Pergunta: Houve um aumento sensível no volume de pessoas com sintomas de ansiedade nos últimos anos, muitos acreditam que, ao menos em parte, a“culpa” é da conectividade. Quais sintomas as pessoas manifestam na
rotina, eles já aparecem nos jovens?

Resposta: Sem dúvidas atualmente vivemos conectados e somos estimulados o tempo todo. Vivemos em estado de alerta! O tempo todo com email aberto, redes sociais, mensagens, enfim nos obrigamos a dar conta de tudo e gerar respostas rápidas seja para as demandas profissionais ou nas redes sociais.

Isso faz com que nossa jornada de trabalho, muitas vezes, extrapole os limites físicos e de horários, pois sempre estamos com o email aberto e dificilmente deixamos pra responder no dia seguinte, sempre caímos na tentação e damos aquela olhadinha pra ver sobre o que se trata. A mesma coisa acontece nas redes sociais, o tempo todo somos tentados a acompanhar a timeline dos colegas e ao mesmo tempo gerar conteúdos para serem observados também.

É claro que isso não é orgânico e nosso corpo responde de diferentes formas, seja pela ansiedade, irritabilidade, apatia, cansaço e muitas vezes enfrentamos situações como essas e nem nos damos conta que a causa pode ser esse excesso de “conectividade”, chega uma hora que a mente cansa e deixamos de ser produtivos, pois não conseguimos nos concentrar ou dar foco para aquilo que é importante e para uma mente sem foco, a riqueza de informação gera pobreza de atenção.

Os mais jovens (até 29 anos) acredito que estejam mais adaptados a lidar com toda essa diversidade de informações uma vez que já cresceram vendo e utilizando muitas dessas ferramentas, mas mesmo assim, tudo tem um limite até mesmo para os mais jovens. Percebo que para os jovens estar conectado é uma necessidade de primeira instância assim como a alimentação, segurança e abrigo.

Isso muitas vezes acaba impactando em outras áreas da vida como nos relacionamentos, sociabilidade, capacidade de se expressar e comunicar, nas negociações e no trabalho em equipe. Chega a ser algo contraditório, as pessoas se comunicam tanto e ao mesmo tempo estão se sentindo sozinhas. Tudo que é em excesso tem suas consequências e os jovens infelizmente não conseguem perceber quando é a hora de parar.

 

P: O senhor acredita que o relacionamento e a interação pessoal via suporte tecnológico estão na medida certa? Uma pessoa tímida se sente mais à vontade online, isso pode deixá-la ainda mais avessa ao contato humano?

R: Vejo que muitas pessoas se escondem atrás do monitor e do teclado de um computador e assumem certas posturas que provavelmente nunca fariam em situações presenciais ou pessoalmente. É um grande equivoco imaginar que poderei fazer e falar tudo aquilo que me vier à cabeça sem responsabilização por esses atos.

É preciso bom sendo, respeito e uma dose de noções sobre marketing e imagem pessoal, afinal estamos nos expondo e tudo isso contribui para a criação de nossa imagem e de nosso nome. Tais posturas equivocadas acabam destorcendo as relações e as tornam superficiais pois sabemos que a interação mediada por um equipamento tecnológico é fria e por mais que exista um esforço para torná-la mais próxima, jamais substituirá uma conversa, uma boa gargalhada, um aperto de mão, um olho no olho!

 

P: Vemos que a necessidade de postar tudo o que acontece parece ter
mecanizado o contato entre as pessoas a ponto de vermos gente ao celular mesmo quando acompanhado em bares, restaurantes, em casa. A falta de contato olho no olho pode deixar as relações mais superficiais?

R: Vivemos em um mundo imagético e isso nos leva  a pensar sob a ótica de duas perspectivas. A primeira se refere ao instinto humano voltado à competitividade e se considerarmos que a internet é um campo livre em constante disputa, naturalmente as pessoas vão “lutar” para conseguir seu espaço nele. Esse espaço refere-se ao quanto o indivíduo é aceito ou não.

Todo ser humano quer ser notado e reconhecido, essas são duas necessidades básicas do ser humano e fazemos isso o tempo todo, seja no trabalho, em casa, com os amigos. Noto que esses novos recursos tecnológicos permitem que as pessoas busquem esse reconhecimento de formas diferentes.

Posso ainda acrescentar a ideia de que a internet é um campo em disputa que horizontaliza e democratiza o acesso e a possibilidade de uma pessoa desconhecida se tornar popular do dia pra noite. Não há nada de errado em buscar ser notado ou reconhecido seja pessoalmente ou virtualmente, afinal isso eleva nossa auto-estima, nos faz bem.

Contudo, acredito que o grande problema é quando esse reconhecimento externo ou de terceiros passa a influenciar demasiadamente na forma de ser, pensar e agir de uma pessoa a ponto de criar dependência a esse tipo de reconhecimento. Como as pessoas tendem a se expressarem mais por meio dos dispositivos eletrônicos, redes sociais, (isso inclui expressões de carinho, admiração, comentários positivos) coisa que pessoalmente talvez não aconteceria, a tendência é as pessoas abrirem mão da convivência real ou presencial em função do atendimento dessa necessidade quem vem pelos meios virtuais.

Muitas vezes não se percebe e chega a ser um ato inconsciente, mas cada vez mais as pessoas, mesmo na companhia de outras, tendem ao isolamento e mantém-se a atenção nos seus celulares e as redes sociais.Isso certamente é um desperdício de oportunidade para solidificar as relações pessoais que se encontram fragilizadas e doentes não só por isso mais também por outros problemas e desafios que a sociedade enfrenta.

 

P: Além disso, tudo deve parecer perfeito na vida “online”, o que passa
longe da realidade, mas parece que as pessoas estão perdendo esse
discernimento. A vida de fantasia das redes sociais é outro gerador de
ansiedade e estresse?

R: Nada é tão humano quanto à imperfeição! Penso que esse mundo perfeito que as pessoas tentam criar na vida online pode ser a tentativa de compensação de algo que ela não possui em sua vida real e também uma ação de posicionamento nesse campo que está em constante disputa. As pessoas tentam a qualquer custo demonstrar poder, status, querem expor ao mundo que estão felizes e usufruindo do melhor que a vida pode oferecer.

Noto que esse comportamento de “mundo perfeito” que observamos na vida online segue os padrões dos famosos e as imposições feitas pela mídia, ou seja, as pessoas anônimas tentam imitar a conduta das pessoas famosas e mundialmente conhecidas, mas temos uma grande diferença entre aquele famoso que vivencia aquela realidade em seu dia a dia e as demais pessoas que forçam a representação de algo que não é real.

Vejo isso como uma tentativa de se impor frente a esse campo e um ato desesperador na busca de notoriedade e reconhecimento. Nenhum ato ou postagem é involuntário, sempre existe uma intensão mesmo que inconsciente.

 

P. O uso do tempo mudou também. Hoje o brasileiro passa em média 36% do seu tempo em redes sociais, o que representa mais de oito horas diárias.O organismo pode se prejudicar com isso? Existem referências sobre mudança ou queda de desempenho no trabalho/estudo?

R: Costumo dizer que nós não administramos o tempo, o que fazemos é nos auto administrar no tempo e através do tempo e com essa imersão nas redes sociais as pessoas acabam perdendo essa noção de tempo no agora e numa perspectiva futura o que é um problema para as empresas e para a produtividade. As pessoas acabam investindo boa parte de seu tempo e também se sua energia mental em coisas que não agregam para a empresa ou até mesmo para a própria pessoa e quando decide trabalhar o indivíduo não consegue manter o foco pois sua mente já está cansada.

Temos vários estudos sendo realizados sobre esse assunto e os resultados preliminares é de que pessoas que passam muito tempo nas redes sociais ou navegando pela internet aleatoriamente tendem a ter dificuldades em se manter concentradas por mais de 10 minutos, apresentam-se mais agitadas e tomam decisões equivocadas, ou seja, profissionalmente falando são pessoas menos produtivas e ineficientes. Quero deixar claro que não sou contra o uso das redes sociais, mas faço um alerta quanto ao uso excessivo desse recurso que acaba impactando e prejudicando a vida real das pessoas e muitas não se dão conta.

 

P: O próprio Facebook no espaço de “status” encontramos as seguintes
perguntas: “no que você está pensando” , “onde você está”, “o que está fazendo”. Esse tipo de questionamento pode aumentar o nível de ansiedade do individuo?

R: Sim, certamente todo esse processo que vivemos tem influenciado de alguma forma na ocorrência de síndromes como a ansiedade, estresse, irritabilidade, depressão, burnout, pânico e fobias. Somos estimulados o tempo todo e isso nos deixa em “estado de alerta”nos criando a “obrigatoriedade” de ter respostas pra essas questões o tempo todo, pois se as outras pessoas respondem, eu não posso ficar pra traz.  Claro que toda essa conectividade gera consequências pois não conseguimos desligar a mente aumentando a ansiedade e o desgaste mental e emocional.

 

P: De acordo com especialistas em recursos humanos, há pessoas que
“sofrem” de abstinência das redes sociais durante o período trabalhado e é preciso liberar o acesso em horários programados. Organizar o horário de acesso a rede dessa forma pode deixar a interação mais saudável?

R: Hoje o jovem profissional apresenta características bem diferentes aos de gerações anteriores e isso implica em adaptações na forma de liderar e conduzir o negócio. Acredito que simplesmente proibir o uso das redes sociais no horário de trabalho não resolve. Como já falamos, esse jovem cresceu utilizando esses recursos e ele leva esse comportamento pra dentro da empresa.

Acredito que as empresas e gestores devam trabalhar um processo de conscientização e convencionar regras quanto ao uso e também a contribuição de cada para o resultado do negócio. Poderíamos dizer que as empresas devam utilizar a “liberdade vigiada” todos sabem de suas obrigações e responsabilidades, a empresa concede certo nível de autonomia e qualquer uso abusivo é tratado pontualmente, buscando orientar e alinhar de uma forma que possa atender os interesses da empresa e também dos indivíduos.

 

P: Nessa época do ano, muita gente sente um aumento de ansiedade e
desânimo, as postagens de redes sociais daqueles que ainda estão em
férias, mudaram de emprego, conquistaram um carro novo, etc, parecem
aumentar o desconforto. Como lidar com esse período tão delicado?

R: Feliz ou infelizmente isso é inevitável, como já falamos, todos estão aproveitando esse período para expor suas vidas e aquilo que podem fazer de melhor. Aqueles que estão em atividade devem procurar outras formas de aproveitar esse período levando as situações de forma mais leve. Vejo que a grande questão está na volta das pessoas que estão de férias.

O retorno das férias é sempre um momento crítico, é a chamada “depressão pós-férias” o profissional retorna sem ânimo e não se envolve de imediato nem com o trabalho nem com os colegas. Essa apatia pode ser involuntária e o jogo de cintura do gestor pode fazer toda diferença. Na mesma sala de trabalho haverá pessoas eufóricas, outras mais caladas. É importante que o gestor veja esses primeiros dias como período de readaptação e distribua as tarefas de forma equilibrada, dando mais tempo a quem precisa.

 

P: Diante desses problemas geradores de estresse e depressão, quais
hábitos podemos modificar em favor de uma maior qualidade de vida? Desplugar da rede aos finais da semana pode ser uma alternativa?

R: Muitas pessoas optam por desplugar, mas simplesmente cortar dessa forma pode não ser a melhor opção. Vejo que as pessoas acabam vivendo em função disso, tudo que é pensado em fazer a pessoa acaba pensando em como aquilo vai poder ser postado, se vai ficar bom, etc. Acredito que essa necessidade é que deve ser controlada e isso depende de um autoconhecimento e dar a devida prioridade para o que realmente é importante pra sua vida. Claro que para aqueles com mais dificuldades certamente devem utilizar regras mais rígidas para se autodisciplinarem e ganharem autonomia sobre isso.

 

P: Outras queixas comuns são descartabilidade dos relacionamentos e a
estafa causada pelo excesso de informação, ambas geradoras de ansiedade também. Um coach pode ajudar as pessoas a ajustarem suas demandas em uma relação mais saudável com a internet?

R: O trabalho de um Coach pode sim contribuir para que a pessoa desenvolva um nível de autoconhecimento e a partir disso consiga definir suas prioridades por meio de um plano de ação. Percebo que muitas pessoas acabam procurando esse tipo de profissional, pois se sentem perdidas ou deslocadas em meio a tanta informação, portanto um Coach vai auxiliar o indivíduo a estabelecer filtros e tomar decisões que possam agregar a sua vida e a sua carreira.

Forte abraço e sucesso!

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